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Humanismo abstrato de Fayga Ostrower ganha exposição na Pinacoteca

Até 31 de maio, a Estação Pinacoteca exibe em São Paulo a exposição Fayga Ostrower – Imaginação Tangível. Com curadoria de Carlos Martins, a mostra é a oportunidade de o grande público conhecer o trabalho de Fayga Ostrower (1920-2001), gravurista, pintora, desenhista, ilustradora, teórica da arte e professora que se tornou pioneira na arte abstrata no País.

Os 130 trabalhos reunidos na Pinacoteca dão um panorama da trajetória de Fayga, que começa na década de 1940 com gravuras inspiradas na literatura e em temáticas sociais, entra de maneira pioneira no abstracionismo a partir dos anos 1950 e se multiplica para os campos da estamparia e da arquitetura. Parte das comemorações do centenário da artista, a exposição conta com obras do acervo da própria Pinacoteca e empréstimos da família de Fayga.

Dos anos de formação, com uso da xilogravura e da gravura em metal, o público encontrará trabalhos feitos a partir de narrativas literárias e com acento social, como os que integram uma edição de 1948 de O Cortiço, de Aluísio Azevedo. A colaboração em livros, suplementos de arte e jornais, aliás, atravessa toda a carreira de Fayga, que ilustrou obras de nomes como Mário de Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima.

O ingresso na linguagem abstrata, pontuado pela publicação do álbum 10 Gravuras, em 1953, é o momento de reconhecimento nacional e internacional da artista. Nos anos seguintes, Fayga receberia o Grande Prêmio Nacional de Gravura da Bienal de São Paulo (1957) e o Grande Prêmio Internacional da Bienal de Veneza (1958). Láureas às quais se somariam prêmios das bienais de Florença, Buenos Aires, México e Venezuela. Junto das obras dessa fase, a exposição apresenta uma coleção de estampas do mesmo período, quando Fayga investiu na produção de tecidos para estofamentos e decoração de interiores.

“O que nós costumamos chamar de arte abstrata é um investimento que, no século 20, muitos artistas farão na procura de uma linguagem específica das artes visuais, como se pudéssemos constituir um vocabulário estritamente visual e plástico, baseado numa espécie de codificação de um alfabeto da visualidade”, comenta o professor Cláudio Mubarac, do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “No caso da Fayga, isso também tem a ver com essa tentativa de depuração da linguagem plástica.”

Pessoalmente, Mubarac não gosta de fazer a separação entre figuração e abstração, mas reconhece que a mudança radical de Fayga fazia parte do vocabulário da época. “A arte abstrata era uma espécie de contrapeso da arte figurativa.”

Completam a mostra produções do período já consagrado da artista, quando Fayga explora novas técnicas, como serigrafia e litografia, com destaque para os cartazes produzidos por ela mesma para suas exposições.

Polônia, Brasil, Rússia

Nascida em Lodz, na Polônia, Fayga passou a infância na Alemanha e chegou com a família ao Rio de Janeiro em 1934, fugindo dos primeiros movimentos do nazismo. No Brasil, cursou Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas em 1947, tendo por professores na xilogravura Axl Leskoschek (1889-1975) e na gravura em metal Carlos Oswald (1882-1971).

A artista também publicou diversos livros e teve também uma intensa carreira docente, ministrando cursos no Brasil e no exterior, com destaque para seus 16 anos de colaboração no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. De 1954 a 1970, Fayga esteve à frente de disciplinas como Composição, Estrutura Espacial e Expressão na Arte, Análise de Estilos, Teoria da Gestalt e Teoria da Percepção. Ainda nos anos 1960, a artista daria aulas no Spellman College, em Atlanta, nos Estados Unidos, e na Slade School da Universidade de Londres, na Inglaterra.

Em 1992, Fayga se tornaria a primeira artista latino-americana (ela naturalizou-se brasileira em 1951) a exibir seus trabalhos na Rússia, desde a Revolução de 1917. E em 1999 receberia o Grande Prêmio de Artes Plásticas do Ministério da Cultura.

Fayga educadora

Mubarac valoriza bastante a faceta educadora da artista. Considera que a atuação no ensino é um desdobramento das preocupações já demonstradas por Fayga em suas primeiras obras, gravuras ligadas a valores humanísticos e vistas como ferramentas para uma sociedade mais justa.

“O bonito, no caso da Fayga, é que quando ela faz essa guinada e se torna uma artista abstrata, esses valores humanísticos da sua mocidade não se perdem. Ao contrário, ela enfatizará toda essa carga, porque vai se dedicar intensamente às questões educativas da arte”, afirma o professor.

Para Fayga, na concepção de Mubarac, não haveria mesmo uma separação entre a artista e a educadora, com as duas atividades sendo complementares em sua trajetória. “A questão da arte como uma espécie de plataforma pedagógica para uma educação integral me parece tão importante quanto a atividade como artista mais solitária”, considera o docente. “Parece que, quando ela conseguia alçar voos mais altos no trabalho pessoal, ela investia também na tentativa de compreensão da arte do ponto de vista histórico, filosófico e poético”, complementa.

“Nós não teríamos a área de estudo das artes se não fossem artistas como ela, que levaram tão a fundo essa atividade de modo tão importante quanto a própria atividade do seu ateliê”, reflete Mubarac.

Fayga no Museu de Arte Contemporânea da USP

O Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP também possui em sua guarda obras da artista. Através do acervo virtual do museu, o visitante pode conhecer alguns dos 22 trabalhos de Fayga pertencentes ao museu. A coleção reúne desde gravuras dos anos 1940, sua fase figurativa e social, passando pelo período celebrado do abstracionismo e chegando até uma água-forte de 1992 doada pela própria artista.

O conjunto, que já compôs diversas mostras organizadas pelo MAC, é uma breve linha do tempo do trabalho de Fayga. “Ele representa bem o trabalho como um todo”, comenta Mubarac. Vale destacar ainda que, em 1988, a Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) deu a Fayga o prêmio de Melhor Exposição, por mostra realizada no próprio MAC.

A exposição Fayga Ostrower – Imaginação Tangível, com curadoria de Carlos Martins, fica em cartaz até 31 de maio, de quarta a segunda-feira, das 10 às 18 horas, na Estação Pinacoteca (Largo General Osório, 66, bairro de Santa Ifigênia, em São Paulo). Entrada gratuita, com reserva feita pelo site pinacoteca.org.br.

Por Jornal da USP

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